Por Eric Myers, originalmente em inglês no blog Performance Matters da GP.
A inteligência artificial (IA) é uma ferramenta valiosa para contar histórias, mas, primeiro, precisamos entender o básico de como os serviços de IA generativa funcionam.
O processo da IA generativa:
1. Humanos interagem com uma interface de chat e fornecem prompts como: “Escreva uma história sobre um cachorro perdido.”
2. Modelos de linguagem de larga escala (LLMs), que operam como cérebros treinados, processam o prompt e o adicionam a um conjunto de dados de treinamento para futuros prompts semelhantes sobre histórias de cachorros perdidos.
3. Os LLMs consultam um conjunto de regras e dados estruturados para determinar quais informações devem ser incluídas na história sobre o cachorro perdido.
4. Os LLMs, então, enviam os resultados (a história do cachorro perdido) de volta aos usuários humanos por meio da interface de chat.
Em posse desse conhecimento, agora podemos explorar a IA e o storytelling em mais detalhes.
Um padrão para contar histórias
Uma boa narrativa, embora altamente subjetiva, pode ser definida usando os mesmos critérios que usamos para avaliar a qualidade do conteúdo gerado por IA.
A história é:
– Sensata?
– Específica?
– Interessante?
– Segura?
– Baseada em fatos ou evidências?
A IA pode contar histórias com o mínimo de inputs de humanos?
Forneça um prompt tão simples quanto “conte-me uma história” em uma plataforma como o ChatGPT da OpenAI, e você poderá notar por si próprio. Plataformas de geração de voz por IA vocalizam seu conteúdo usando vozes de IA e podem criar modelos usando a sua própria voz. Na superfície, é um sim retumbante: a IA pode escrever, contar e ler histórias.
Mas a IA tem limitações que devemos considerar:
– Incapacidade de explorar e exercer curiosidade;
– Incapacidade de compreender contexto;
– Falta de inteligência emocional;
– Julgamento ético questionável;
– Adaptabilidade limitada.
Os seguintes exemplos reais de histórias geradas por IA ilustram algumas dessas limitações:
O primeiro curta-metragem roteirizado inteiramente por IA em 2016, Sunspring, é desconcertante e estranho quando processado por um humano racional e emocional. Na época, poderia se argumentar que a IA nunca substituiria humanos na escrita de roteiros.
O curta The Safe Zone foi escrito e dirigido por IA. Ele é mais refinado que Sunspring, mas ainda um pouco desajeitado.
Curtas como The Frost usam roteiros escritos por humanos e aproveitam a IA de criação de imagens para trazê-los à vida de maneiras novas e abstratas.
Embora certamente interessantes, a qualidade do conteúdo nesses exemplos não é suficiente.
– A história é sensata? Nem tanto.
– Específica? Não.
– Interessante? Talvez.
– Segura? Sim.
– Baseada em fatos ou evidências? Provavelmente não.
Boas histórias atenderiam a todos esses critérios de controle de qualidade, mas a IA sozinha simplesmente não consegue alcançar os padrões atuais. O cérebro humano ainda deve participar ativamente da criação de histórias derivadas de IA por meio de:
– Prompt inicial;
– Refinamento posterior desses prompts;
– Digestão e interpretação do conteúdo gerado pela plataforma de IA;
– Contribuição criativa e visão geral.
A IA como ferramenta colaborativa para contar histórias
A comunidade de storytelling lida com duas grandes questões quando se trata de IA:
– Humanos e IA podem se unir para criar e contar histórias melhores?
– Existe um equilíbrio perfeito entre quanto de uma história é derivado do cérebro humano versus o que é aumentado pela IA?
A resposta pode ser uma questão de perspectiva. Aaron Kemmer, que co-produziu The Safe Zone, disse:
“Eu poderia facilmente ver a IA levando a filmes personalizados… em que você pode ver qualquer variação de qualquer filme que já quis. Ver Tom Cruise interpretando o Homem de Ferro lutando contra Darth Vader… ou um número infinito de ideias.”
Pesquisas de Eric Nichols, Leo Gao, Yurii Vasylkiv e Randy Gomez sugerem que a “geração colaborativa de histórias” pode ser a forma mais favorável de aproveitar a IA no storytelling. Eles observam as vantagens da colaboração por meio da criatividade expandida e reconhecem as desvantagens de um modelo gerador mal “ajustado” e da variação associada à emoção humana. A complexidade da emoção humana não é algo facilmente decifrado por código.
A colaboração com IA pode ser uma nova ferramenta para o trabalho de quem conta histórias criativas, como um artista com um novo tipo de pincel. Para outros, a co-criação pode se limitar a experimentar prompts iniciais para estimular ideias. De qualquer forma, a geração colaborativa de histórias pode aproveitar as forças da IA e dos humanos para desenvolver conteúdo de forma rápida, precisa e consistente, equilibrando criatividade, curiosidade e inteligência emocional humanas.
Ignorando todo o storytelling por IA
Contar histórias está profundamente enraizado na experiência humana, e a prática é tão antiga quanto a fala. Como contador de histórias, existem sentimentos e perspectivas intangíveis que influenciam minha posição sobre a IA.
A IA não pode:
– Experimentar desgosto amoroso;
– Sentir alegria ou medo intensos;
– Recorrer a experiências vividas e expressá-las de uma forma autenticamente humana;
– Expressar plenamente os sentimentos complexos por trás da entrega das palavras faladas.
Peça ao ChatGPT que escreva uma carta de amor e veja se ela é sensata, específica, interessante, segura e fundamentada. Depois, pergunte a si mesmo se ela é emocionalmente envolvente e pessoalmente significativa. Embora a IA possa antecipar respostas emocionais com base em dados, a eficácia é medida na resposta humana.
Resposta humana efetiva é algo que a IA não consegue fazer, e há evidências que apoiam essa posição. Em um estudo sobre a capacidade das pessoas de distinguir poesias escritas por humanos das geradas por IA, Nils Köbis e Luca Mossink descobriram que “…as pessoas preferem poemas escritos por humanos a poemas gerados por algoritmos, o que não é afetado pela informação sobre a presença algorítmica…”
Humanos preferem conteúdo humano. Podemos ser limitados em consistência, precisão e capacidade de lidar com grandes conjuntos de dados ou de não poder trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, mas as forças humanas (como criatividade, curiosidade e inteligência emocional) estão em contraste direto com as limitações da IA.
Determine quão útil é o valor da IA para contar histórias para você
Seja seu caso de uso profissional ou pessoal, explorar as forças e limitações da IA no storytelling por meio da sua própria lente vale a pena.
Complete este simples exercício para avaliar sua perspectiva:
– Programe um timer para 30 minutos;
– Abra um documento em Word/Google/Pages;
– Usando apenas a inspiração da sua mente, escreva uma história curta;
– Após 30 minutos, pare de escrever e leia o que produziu;
– Resuma seu texto em um enredo;
– Digite esse enredo como um prompt em sua plataforma favorita de IA generativa (“escreva uma história sobre…”);
– Compare a saída da IA com o que você escreveu.
– Se sentir que a história gerada pela IA é melhor do que a sua, você pode ser um bom candidato a usar a IA exclusivamente para escrita narrativa.
– Se ficar intrigado com o que a IA produziu e se perguntar como poderia ser diferente com alguns ajustes, provavelmente é um bom candidato para co-criação.
– Se não ficar satisfeito com a história gerada pela IA, pode se inclinar a um processo de storytelling menos influenciado por IA (se é que será influenciado).
Quando eu mesmo completei o exercício, os resultados foram impactantes.
Usei a plataforma Rytr AI e um único prompt para a história gerada por IA. Veja como a primeira linha de cada história começou (você pode ler ambas no final deste artigo):
– Escrita por humano: “A batida forte do lápis mecânico de Jake no chão de linóleo interrompeu o silêncio concentrado da aula de inglês.”
– Gerada por IA: “Em uma escola de ensino médio de uma pequena cidade, Jake, um estudante comum com paixão por escrever, se vê diante de mais uma tarefa de redação criativa.”
Para que caminho vamos a partir daqui?
Como você usa IA generativa no espaço criativo é com você, mas é importante entender por que está usando.
– Há algo que você está tentando alcançar?
– Qual é o incentivo ou ganho de usar IA para gerar histórias?
– É uma atividade recreativa ou lúdica que é simplesmente divertida para você?
Pense criticamente sobre por qual motivo está usando IA e considere os benefícios e possíveis desvantagens para seu caso. Por exemplo:
– Os benefícios da eficiência e velocidade da IA podem superar a necessidade de profundidade emocional e impacto entregues pelo toque humano;
– O conteúdo pode exigir reflexão humana profundamente pessoal com base em experiências vividas.
Contar histórias, seja em uma solução profissional ou como arte performática, requer as forças humanas de curiosidade e criatividade para gerar uma ideia. Exceto em um futuro distópico à la Exterminador do Futuro, ferramentas de IA generativa continuarão sendo apenas isso: ferramentas.
Comparando uma história humana a uma história escrita por IA
Caso tenha curiosidade, minha história original e a história gerada pela Rytr AI estão incluídas abaixo.
História original escrita por humano
A batida forte do lápis mecânico de Jake no chão de linóleo interrompeu o silêncio concentrado da aula de inglês. Despertados do transe estudioso, pares de olhos de repente se voltaram para a direção de Jake. O barulho inesperado, sendo apenas um incômodo temporário, logo os fez retornar aos próprios papéis e a seus lápis fervorosamente em movimento.
Jake tinha certa reputação por quebrar a tensão em sala de aula. Às vezes era literalmente soltando gases no meio de uma palestra, causando risadinhas incessantes e atraindo um olhar fulminante da professora. Em outras ocasiões, ele sincronizava tosses falsas com cada pausa no ritmo natural da fala da professora. Jake tinha muitas formas criativas de chamar atenção para si mesmo, mas, como o menino que gritava “lobo”, suas travessuras raramente causavam comoção.
Nesta ocasião, no entanto, deixar o lápis cair no chão não foi um pedido de atenção. Jake teve uma revelação. O lápis rolando de sua mesa foi um subproduto da descoberta — uma vítima de um momento “eureka”.
Desde o momento em que a professora passou o exercício de redação criativa no início da aula, Jake lutava para romper a página com uma frase inicial convincente. Ele não se via como criativo, achava que não tinha ideias originais e geralmente odiava escrever. Esteve tentado a recorrer a uma de suas velhas artimanhas e fazer idas urgentes ao banheiro a cada cinco minutos (alegando ter uma diarreia incontrolável e explosiva), mas resistiu ao impulso.
Depois de 15 minutos rodando em falso, a realização o atingiu como um trem de carga. Ele se mexeu na cadeira para alcançar a mochila, fazendo o lápis mecânico iniciar sua jornada pelo canto da mesa.
“Meu Chromebook!”, ele pensou.
Na maior parte do tempo, Jake e seus colegas usavam os Chromebooks em vez dos livros durante as aulas. Na aula de inglês, no entanto, havia sempre uma regra de que os laptops deveriam permanecer nas mochilas durante os exercícios de escrita.
Quando todos os olhos temporariamente distraídos voltaram para seus próprios papéis, Jake já tinha tirado o Chromebook da mochila e aberto a tela. A professora, acostumada a não dar muita atenção às travessuras de Jake, não percebeu a quebra proposital das regras da sala.
Lembrando-se de um comentário que seu pai fizera no jantar, mais cedo naquela semana, sobre como a IA estava impactando seu trabalho, Jake pesquisou no Google “redator de redações com IA grátis”. Seu pai trabalhava em marketing em uma pequena empresa, e Jake se lembrava de ouvi-lo dizer: “Essa IA vai tirar meu emprego. Ninguém vai mais precisar de mim para criar nada.” Como muitos adolescentes, Jake sabia que reclamações de pais sobre tecnologia eram um convite para explorá-la mais a fundo. Se os pais não gostavam, provavelmente havia algo que um garoto de 14 anos poderia aproveitar.
E de fato, Jake descobriu um tesouro de plataformas de IA generativa prometendo escrever sua redação em segundos. Muitas afirmavam fazer isso de graça, bastando se cadastrar em uma versão de teste. Em questão de segundos, Jake não apenas estava a caminho de terminar sua redação criativa, mas também de ser o primeiro a bater na mesa e proclamar em voz alta: “Pronto!”
A desaprovação da professora pela explosão barulhenta de Jake e a repentina percepção de que seu Chromebook estava sobre a mesa certamente trariam consequências, mas nenhuma nuvem de disciplina poderia apagar o orgulho radiante, o espírito livre e o senso de realização de Jake naquele momento.
“Por que todo mundo não faz isso!?!” ele se perguntou.
História gerada por IA (sem refinamento de prompt)
Prompt inicial utilizado para gerar esta história: “Um estudante chamado Jake percebe que não precisa mais usar papel e lápis para escrever redações em sua aula de inglês do ensino médio. Em vez disso, ele pode usar IA generativa como ferramenta de narrativa para uma tarefa de escrita criativa.”
Em uma escola de ensino médio de uma pequena cidade, Jake, um estudante comum com paixão por escrever, se vê diante de mais uma tarefa de redação criativa. Sentado em sua mesa, encarando a folha em branco à sua frente, ele não consegue evitar sentir desânimo. Escrever redações sempre lhe pareceu uma tarefa tediosa.
Um dia, navegando na internet em busca de dicas de escrita e inspiração, Jake se depara com uma nova ferramenta de IA que afirma ser capaz de gerar histórias únicas e criativas. Intrigado com a ideia, ele decide experimentá-la em sua próxima tarefa.
Com uma mistura de curiosidade e ceticismo, Jake digita seu tema de redação e observa enquanto a IA começa a gerar parágrafos cheios de ideias imaginativas. As palavras fluem sem esforço pela tela, pintando imagens vívidas em sua mente. Ele fica maravilhado com a capacidade da IA de compreender a essência da narrativa e elaborar enredos envolventes com tanta facilidade.
Sentindo-se inspirado pelas sugestões da IA, Jake começa a incorporar suas ideias em sua própria escrita. Ele adiciona seu toque pessoal à história, refinando-a para que se encaixe em sua voz única. Enquanto continua digitando, percebe que essa nova ferramenta abriu um mundo de possibilidades para ele.
O dia da entrega chega, e Jake entrega sua redação com confiança. Sua professora de inglês fica intrigada ao lê-la — era diferente de tudo o que já havia visto dele. A história é cativante, cheia de reviravoltas inesperadas que a mantêm envolvida até o fim.
Impressionada com o trabalho de Jake, ela elogia sua criatividade e perspectiva única. No entanto, quando o questiona sobre o processo ou as dificuldades que enfrentou ao escrever, Jake hesita por um momento, mas então decide contar a verdade sobre o uso da ferramenta de IA.
Esperando decepção ou repreensão, Jake se surpreende quando a professora o elogia por pensar fora da caixa e usar a tecnologia como auxílio na narrativa. Ela o incentiva a continuar aprimorando suas habilidades de escrita e a explorar diferentes técnicas.
Daquele dia em diante, Jake deixou de ver as tarefas de redação como um fardo. Passou a vê-las como oportunidades para experimentar, colaborar com a IA e liberar sua criatividade. Aprendeu a encontrar o equilíbrio entre usar a ferramenta de IA como inspiração e manter sua própria voz única na escrita.
À medida que Jake continua a crescer como escritor, descobre que a ferramenta de IA é apenas uma peça do quebra-cabeça. Ela pode fornecer ideias e sugestões, mas é sua própria imaginação e habilidade narrativa que realmente dão vida às redações. E assim, munido dessa nova confiança, Jake embarca em uma jornada de autoexpressão por meio das palavras, explorando as possibilidades ilimitadas de contar histórias na era digital.
