Por Gabriel Ribeiro
A construção de uma cultura inclusiva começa nas pequenas atitudes e, muitas vezes, nos detalhes que passam despercebidos. Entre esses detalhes está o capacitismo, uma forma de preconceito ainda amplamente naturalizada e que precisa ser reconhecida, debatida e eliminada para que ambientes de trabalho, espaços públicos e interações cotidianas se tornem realmente acessíveis e respeitosas.
O que é capacitismo e por que ele é tão prejudicial
O termo capacitismo se refere à discriminação ou preconceito contra pessoas com deficiência. É a ideia, muitas vezes implícita, de que corpos, mentes e modos de viver considerados “normais” são superiores. Ele aparece quando alguém é tratado como “coitadinho”, “herói” ou “exemplo de superação”, apenas por realizar atividades do dia a dia. Também se manifesta quando se subestima a capacidade de uma pessoa com deficiência, seja no trabalho, no estudo ou em situações cotidianas.
E você pode se enganar, ao acreditar que esse tipo de comportamento não precisa, obrigatoriamente, vir de uma intenção negativa para causar dano. Na maioria das vezes, ele surge de falta de informação e de percepções estereotipadas sobre deficiência. O impacto, porém, é profundo, pois reforça barreiras sociais, cria desconforto, limita oportunidades e afasta pessoas de espaços onde deveriam estar plenamente incluídas.
Para combater o capacitismo, é essencial desenvolver empatia, mas não aquela empatia que trata pessoas com deficiência como frágeis ou especiais. Falar sobre empatia aqui é falar de respeito, escuta e igualdade de tratamento.
Ações que parecem gentis, mas são capacitistas
Grande parte das atitudes capacitistas vem disfarçada de boas intenções. O problema está em agir sem perguntar, ajudar sem ouvir e decidir o que a pessoa precisa, sem perguntar o que ela realmente precisa. Alguns exemplos comuns, e porque eles são prejudiciais, são:
– Tocar em um cão-guia: esses animais estão trabalhando e precisam de total concentração para garantir a segurança da pessoa que acompanham. Quando alguém os acaricia ou chama, está, na prática, distraindo e colocando em risco a vida da pessoa com deficiência visual.
– Pegar na mão de uma pessoa cega para guiá-la: a forma correta é oferecer o braço e deixar que ela decida como quer ser conduzida. Guiar à força é invasivo e desrespeitoso.
– Falar com a pessoa acompanhante em vez da pessoa com deficiência: isso é uma das formas mais comuns de desumanização. A pessoa com deficiência é plenamente capaz de responder por si mesma.
– Falar em tom infantilizado ou exaltado: o uso de diminutivos e expressões como “ai, que bonitinho, ele pegou o copo sem ajuda”, “parabéns por sair sozinho”, “você é muito corajosa”, podem parecer elogios, mas são formas sutiis de reduzir a autonomia e infantilizar.
– Estacionar “só por um minutinho” em vagas reservadas: além de ser uma infração, essa atitude demonstra falta de empatia e de percepção sobre o impacto real que causa na rotina de quem precisa da vaga.
Esses exemplos mostram que a acessibilidade vai além da infraestrutura. Rampa, elevador e banheiro adaptado são fundamentais, mas a inclusão depende de uma mudança de mentalidade coletiva.
Frases capacitistas que precisamos aposentar
A linguagem é um espelho da cultura. E, no caso do capacitismo, é nela que muito desse preconceito se perpetua. Expressões do cotidiano podem parecer inofensivas, mas carregam visões distorcidas sobre o que é ter uma deficiência.
Entre as mais comuns estão:
– “Você nem parece autista.” Essa frase tenta elogiar, mas, na verdade, nega uma parte da identidade da pessoa. O autismo é uma condição invisível em muitos casos, e não há “aparência de autista”.
– “Que desperdício, ela é bonita demais para ser cadeirante.” Esse tipo de comentário associa beleza à ausência de deficiência, como se uma coisa excluísse a outra.
– “Pessoa deficiente” O termo correto é “pessoa com deficiência”, pois coloca o indivíduo antes da condição, reconhecendo que a deficiência é apenas uma característica, não uma definição.
– “Portador de deficiência” Também inadequado, pois ninguém “porta” uma deficiência, como se pudesse deixá-la em casa. Ela é parte da vivência da pessoa.
– “Ela sofre de deficiência.” Nem toda deficiência implica sofrimento. O sofrimento muitas vezes vem da exclusão e da falta de acessibilidade, não da condição em si.
– “Ele é um exemplo de superação.” A ideia de que uma pessoa com deficiência é “inspiradora” apenas por existir reforça um estereótipo de que a deficiência é algo negativo. As pessoas com deficiência não estão aqui para inspirar, mas para viver plenamente, como qualquer outra.
Mudar a forma como falamos é um passo importante para mudar a forma como pensamos. Lembre-se de que a linguagem inclusiva é uma ferramenta poderosa de transformação cultural.
Como promover empatia real no convívio diário
Mais do que evitar palavras ou gestos capacitistas, é preciso adotar atitudes de escuta e respeito. Isso significa perguntar antes de ajudar, ouvir as necessidades da pessoa com deficiência e respeitar suas escolhas sobre como deseja participar de atividades ou espaços.
Empatia não é adivinhação. É construção de vínculo. E a inclusão verdadeira nasce quando se cria um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para dizer o que precisam, sem medo de constrangimento ou julgamento.
No contexto corporativo, isso envolve treinar lideranças, revisar comunicações internas e garantir acessibilidade digital e física. Também significa criar canais de diálogo e representação, como grupos de afinidade e comitês de inclusão.
Um convite à mudança e ao respeito
A luta contra o capacitismo não se resume a evitar ofensas. Ela está em repensar comportamentos, em perceber pessoas com deficiência não como exceções, mas como parte integral da diversidade humana.
Quando uma empresa, ou uma pessoa, se compromete com a empatia, ela não apenas elimina barreiras: ela transforma o modo de conviver, aprender e trabalhar. E é nessa transformação que a verdadeira inclusão acontece, não por obrigação, mas por consciência e respeito genuíno.
